sábado, 19 de agosto de 2017

Que país é este?


“Nas favelas, no senado sujeira pra todo lado/Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.” Desde os anos 80 os jovens brasileiros vêm cantando indignados “Que país é este?”, mas parece que ainda não conseguiram responder. Aparentemente o que chega até nós é que divulgar uma ideia é fácil, lutar por ela é que é difícil.
Como podemos aprender a não apenas a gritar, mas a fazer algo, se nossos pais, aquela mesma juventude tão questionadora de outrora, hoje se encontram em trabalhos infelizes para pagar impostos exorbitantes, porque viram que não adianta discutir com “coronel”. Como prosseguir vendo que os brasileiros se cansam e esquecem facilmente da história política do próprio país?
Escrevi no ano passado e, com muito pesar, volto a dizer: o cenário político atual é de caos. Mais investigações em andamento e protestos sarcásticos em forma de memes bem-humorados nas redes sociais. Parece que o brasileiro tem uma resiliência gigante e consegue se adaptar a qualquer adversidade. Mas não exponho isso como uma qualidade. A capacidade de “dar um jeitinho” levou o país ao comodismo.
Aprendemos a não enxergar a desigualdade, a corrupção e a falta de educação. Estamos todos contaminados pela “cegueira branca” de Saramago. Desenvolvemos a princípio uma cegueira seletiva, enxergando apenas o que queremos, o que nos faz bem. Mas o que acontece quando ficamos com os olhos fechados por muito tempo? “O mundo está ao contrário e ninguém reparou.”

O livro “Ensaio sobre a cegueira”, mostra uma epidemia, onde todos perdem a visão, gerando um caos na sociedade. Um tenta ser mais esperto que o outro e cada um luta pela sobrevivência a seu modo. Não há respeito, há pouca cooperação e todos vivem de maneira desumana. Parece que você já ouviu essa história antes, não? Ignorando mais um retrocesso na política do Brasil, seguimos apenas cantando “Que país é este?”

sábado, 15 de julho de 2017

Pais bons são pais desnecessários


Freud já dizia que mãe boa é aquela que vai se tornando desnecessária ao longo da vida. Não, não falo de falta de cuidado, mas de confiança. Pais bons são aqueles que ensinam suas crianças sobre respeito, amor e autoestima. São aqueles que criam seus filhos para que sejam independentes, confiantes e felizes com suas próprias escolhas. Em suma, pais bons são porto seguro.
Aquela mãe superprotetora, por mais bem que pense fazer ao seu filho, acaba o privando de conhecer o mundo – e seus perigos – por si mesmo. Ela evita uma situação desconfortável, facilita a resolução de problemas e prepara a criança para um mundo seguro (perto dela). Ela só esquece que os filhos crescem e ela não viverá para sempre.
Há quem diga que você só sabe se foi uma boa mãe quando os filhos já cresceram. É no momento que o jovem decide seu caminho que os pais podem enxergar se conseguiram ensinar tudo o que julgavam necessário. Ainda que cada família tenha uma maneira de pensar e educar suas crianças, o propósito maior é vê-las felizes. E por acaso sabemos o que é felicidade para o outro?
Entender que cada filho é único a mãe entende, mas compreender que essa singularidade traz consigo uma gama de opiniões e sonhos próprios é mais difícil. As escolhas do outro nem sempre fazem sentido para nós e é preciso um pouco de flexibilidade e muito respeito para aceitar a escolha da pessoa. Aceitar a decisão de um filho é aceitar que ele não é a criança que você idealizou. E mais uma vez, é um grande desafio.
Ele nasce (e não tem os olhos azuis tão sonhados), cresce (decide ser educador físico em vez de médico) e decide sair de casa (e partir para longe dos pais). Precisamos lembrar que nossos sonhos nem sempre são os sonhos dos nossos filhos. Nesses momentos em que o desespero bate, lembre-se da criação. Pais desnecessários são porto seguro e serão sempre “lar” para onde os filhos voltam de tempos em tempos. Acredite nos seus ensinamentos e nunca estará longe das “suas” eternas crianças.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quando eu fiquei doente de tanto trabalhar


Parece mentira, mas muitas pessoas estão adoecendo devido às constantes exigências cada vez mais complexas do mercado de trabalho. Você precisa se especializar cada vez mais, falar ao menos dois idiomas e conseguir cumprir metas quase irrealistas... tudo para manter o emprego. Acontece que a antiga definição de trabalho, do latim, tripalium, tortura, voltou com toda a força e as pessoas voltaram a adoecer não só física, mas psicologicamente.
A Síndrome de Burnout é uma resposta do organismo a situações de estresse contínuas no ambiente de trabalho. É o famoso estado de esgotamento. A sociedade capitalista demanda um giro de mercado acelerado e a geração de empregos está intimamente ligada à produção. Na tentativa de manter um emprego, as pessoas podem desgastar-se física e mentalmente tentando obter cada vez mais resultados e mostrar maior desempenho.
A carreira é determinante na vida para o sujeito inserido em uma sociedade. O trabalho representa seu papel social e sua função para construção de identidade. O emprego garante seu status social, portanto, mesmo descontente e sofrendo, o sujeito continua trabalhando. Forma-se, então, um círculo vicioso, onde o estresse e as cobranças da organização afetam os profissionais e estes afetam a empresa, tendo dificuldades de trabalhar em seu potencial máximo.
Apesar de ser uma doença relacionada ao trabalho, ela afeta a vida pessoal e os sintomas prejudicam a qualidade de vida como um todo. Esses variam entre dores físicas, como cefaleia, gastrite, mal-estar, e alterações psicológicas, como oscilações de humor, problemas de sono, dificuldade de concentração, entre outros. De modo geral, é um grito de socorro do seu corpo.
O cérebro também precisa de descanso. O cansaço acumulado e o estresse constante alteram conexões cerebrais, fazendo-o sentir os sintomas já listados acima, além de contribuir para o envelhecimento. A síndrome de Burnout é um transtorno psicológico e como qualquer doença, há tratamento. A diferença é que o princípio ativo é o próprio sujeito. A medicação alivia os sintomas, mas somente quem sofre pode mudar a maneira de “se matar de trabalhar”.

sábado, 13 de maio de 2017

A cicatriz da tristeza


A solidão escapa pelas marcas de estilete no corpo. As manchetes do jornal ilustram adolescentes deprimidos e machucados pela falta de empatia. A era do desapego faz vítimas assim como a AIDS em seu surgimento. Ninguém sabe ao certo o que levava a pessoa a contrair o HIV, nem sabiam um possível tratamento. Pois a cultura dos relacionamentos artificiais acaba de fazer tantas vítimas quanto, por meio do suicídio.
As crianças já não brincam na rua, os adolescentes não se reúnem em barzinhos... é tudo por intermédio das redes sociais. Até mesmo o convite ao suicídio foi realizado por meio eletrônico com o convite para o jogo “Baleia Azul”. Jovens são convidados a completar uma lista de 50 desafios, sendo que o último é acabar com a própria vida. É, “O mundo está ao contrário e ninguém reparou.”
Esse jogo surgiu na Rússia e neste ano teve uma repercussão maior devido aos casos ocorridos no Brasil. No entanto, esse jogo é apenas a “ponta do iceberg”. É apenas a brincadeira do momento, assim como foi o jogo da asfixia meses atrás. A juventude está doente e a pressa cotidiana não deixa tempo para percebermos a proporção que a tristeza tomou. O suicídio é coisa séria, mas não somos educados para falar da morte, então deixamos passar mais um tabu.
É preciso falar sobre o suicídio, sobre a depressão, sobre a solidão. A falta de empatia leva à negação do problema alheio e, consequentemente, ao isolamento. Cada um sofre em seu canto, não há espaço para dividir os temores. A geração que vive para o trabalho não consegue se encontrar com a geração que ninguém compreende. Há um gap, um espaço que é preenchido pelo vazio da esperança.

Novamente, a demanda no consultório é de depressão, ansiedade, síndrome do pânico. Mais uma vez, a razão é a falta de tempo para os filhos, a pouca atenção ao sofrimento alheio e a cultura cada vez mais desapegada por fora e sentimentalista por dentro. Chega a ser assustador que a depressão, uma doença mental, seja mais incapacitante do que o câncer. A tristeza constante é algo sério. As consequências podem ser desastrosas e as cicatrizes, permanentes.

sábado, 29 de abril de 2017

Big Brother: a nova caixa de Skinner



Mais uma edição do programa Big Brother no Brasil com muitas polêmicas e uma audiência espetacular. Pessoas sentadas em frente à TV acompanhando os movimentos de cada participante e vivendo as “emoções de novela” representadas pelos participantes. Uma simples pergunta me vem à mente: “Os participantes são os “controlados” ou os controladores?”
O termo “Big Brother” teve origem com George Orwell em seu livro “1984”, que narrava uma sociedade vivendo sob vigilância desse “grande irmão” que tudo vê e controla. Na psicologia, ratos são colocados na caixa de Skinner, uma caixa de vidro, com uma pequena abertura para a água e uma barra, a qual o animal deve pressionar para “ganhar” a água. O rato deve aprender que para ganhar a recompensa, deve agir de uma determinada maneira. Associando o comportamento animal ao humano, os participantes são os ratos, enquanto o público é esse “grande irmão” operando uma caixa de Skinner.
Discussões, relacionamentos, competição, emoção... tudo isso acontece naturalmente. Um grupo de pessoas reunidas apresenta também esses comportamentos pelo simples fato de serem humanos. Relacionar-se faz parte da vida e cada um tem uma opinião diversa sobre os mais variados conceitos. A diferença do Big Brother para a sociedade como um todo, é que além dessas pessoas estarem competindo, elas estão também sendo observadas.
A famosa “espiadinha” dos participantes em um ambiente confinado os leva a reagir de uma determinada maneira para conquistarem a empatia do público e consequentemente, o prêmio em dinheiro. O modo como as pessoas se comportam quando estão sozinhas é diferente de quando estão em uma “vitrine de competição”. Os “ratos” devem aprender a melhor maneira de sobreviverem à competição. A pergunta que sempre me faço é: “Para quê fazem isso?”

Infelizmente, a resposta aparece no consultório. A demanda de muitos pacientes diz respeito à falta de reconhecimento. Ela vem em forma de ansiedade, depressão, isolamento, desmotivação e solidão. A busca pela praticidade e os avanços tecnológicos fazem o tempo “voar” e os relacionamentos tornarem-se mais voláteis. O comportamento aprendido é o desapego. Como consequência, as pessoas começam a sentir falta da companhia, do cara a cara, do elogio. A falta de reconhecimento leva à angústia de viver sem ser notado. É aí que a busca pela atenção se transforma em entretenimento... e mais tristeza.

sábado, 25 de março de 2017

“O afeto é revolucionário”



Apenas sete meses de vida e uma história tão longa para contar. Um diagnóstico, as complicações de saúde, mas finalmente a esperança de recuperação. A difícil realidade de quem precisa acreditar nos outros para sobreviver. No entanto, como sensibilizar as pessoas que foram educadas a não deixar transparecer seus sentimentos em plena era de relacionamentos digitais?
O filme “Ensaio sobre a Cegueira”, baseado no livro homônimo de José Saramago, mostra como as pessoas passam a se comportar (e a serem tratadas) após uma epidemia de “cegueira branca” atingir a cidade. A perda da visão é usada como metáfora para o fato de não querermos enxergar os outros, focando-nos cada dia mais em nossos problemas e minimizando o sofrimento alheio.
A era racional e prática raramente dá margem à sensibilidade. A constante exposição à violência, à falta de respeito e às mortes leva a um sentimento de frieza. O sentimento de culpa, que a princípio temos pelas injustiças sociais, se transforma em frieza para que nosso consciente não sofra com essa punição inconsciente de que “eu poderia fazer algo para mudar isso.” No entanto, muitas vezes o incômodo prevalece e é aí que reside a empatia.
Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. É só assim que podemos compreender a dor do outro, um sofrimento que não temos ideia de como é, mas que conseguimos imaginar pelo simples fato de estarmos dispostos a compreender. É somente com empatia que entendemos que dores não são comparáveis; minha angústia não é maior nem menor que a do outro, ela é diferente, pois cada um sente de uma maneira com uma intensidade diferente.

Foi com essa sensibilidade ainda presente no ser humano que Joaquim, diagnosticado com atrofia muscular espinhal (AME) tipo 1, despertou a empatia de milhares de pessoas, que se mobilizaram e fizeram doações com esperança na recuperação da criança. Em tempos de crise financeira e emocional, a cabeça parece que vai explodir... ainda bem que é o coração quem insiste e resiste talvez para mostrar que o afeto é sim revolucionário.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A boca cala, o corpo fala


Você já teve dor de cabeça “de preocupação”? Ou ficou com dor de estômago após passar raiva? Se já sentiu incômodo físico, sem qualquer razão aparente, você teve um quadro psicossomático, ou seja, transferiu algo emocional para o corpo, afinal, quando a boca cala, o corpo fala.
O ser humano funciona de maneira integrada (lembra daquele famoso ditado “mente sã, corpo são”), assim como a homeostase corporal, precisamos manter também nosso equilíbrio psíquico. Somos feitos de carne, osso e alma; da mesma maneira que “somos o que comemos”, somos o que sentimos e o que pensamos. Há diversas teorias que sugerem o poder dos nossos pensamentos em alterar nosso estado físico, de modo que somatizamos um sintoma psíquico em maior ou menor grau dependendo de nossos recursos.
Há diversas discussões sobre as causas da fibromialgia, da gastrite, de alergias, dentre outras condições, sendo que muitos estudos afirmam ser o estado mental que interfere nessa alteração corporal. Há de se lembrar que muitas doenças têm origem puramente orgânica; uma gastrite pode ser causada por uma má alimentação e uma alergia pode se dar pelo contato com algum alérgeno. Ainda assim, considera-se que pode haver conteúdos inconscientes na nossa mente que tornam nosso organismo mais vulnerável ao desenvolvimento de algumas doenças.
Mas se nós mesmos produzimos nossos problemas, por que não podemos resolvê-los? A resposta é muito simples: porque não temos consciência da nossa condição e principalmente da nossa psique. Quando surge qualquer sintoma físico, procuramos todas as possíveis causas orgânicas, que sempre deve ser o primeiro passo. Quando nada é encontrado, devemos procurar por razões psíquicas que possam ter desencadeado esses sintomas, considerando que cada individuo vivencia suas questões de maneira única e por vezes, pode não ter notado que sua enxaqueca é gerada pelo estresse em seu ambiente de trabalho, por exemplo.

Dessa maneira, fatores genéticos, psicológicos e ambientais devem ser considerados ao analisar a causa de uma patologia. Ao contrário da nossa pressa cotidiana, onde problemas devem ser resolvidos o mais rapidamente possível (geralmente com uso de medicação), apenas combater o sintoma não necessariamente eliminará a condição em si; é preciso buscar a origem para que essa causa possa ser trabalhada e finalmente solucionada. Fundamental é ter consciência de seu corpo e sua mente como integração do seu “eu”.