sábado, 17 de março de 2018

“Quem tem medo do lobo mau?”



Balas perdidas no Rio de Janeiro, bombardeios na Síria, abuso infantil... as pessoas estão perdendo sua humanidade. A honestidade e o respeito escorrem pelo ralo ao ler ou assistir qualquer jornal, onde a violência tem lugar de destaque e já não choca mais quase ninguém. Deixamos a inocência da Chapeuzinho Vermelho de lado e nos tornamos o Lobo Mau: enganamos os outros e devoramos a empatia.
Thomas Hobbes tornou célebre a frase “O homem é o lobo do homem”, do dramaturgo romano Platus, ao reafirmar que “o homem é o maior inimigo do próprio homem”. Em vez de humanidade, o homem aproxima-se da selvageria animal ao agir com desrespeito e violência cometendo atrocidades contra a própria espécie. Aparentemente não há mais pudor em matar, abusar, torturar, roubar...
Há três anos, a foto do menino Aylan desfalecido na praia estampava as manchetes de jornais e revistas. Ainda hoje, muitas crianças sírias continuam sendo alvo dos bombardeios e das metralhadoras apontadas diretamente para suas famílias. As “balas perdidas” (que têm endereço e sobrenome) continuam a destruir comunidades e esperanças, sem previsão de trégua. Não é só uma fase, a intolerância e a guerra são contínuas (porque queremos).
O ser humano tem uma habilidade enorme para adaptar-se. O que, a princípio, é uma qualidade, também se torna sinônimo de fraqueza ao ver que, sem perceber, nos acomodamos com o que nos incomoda. Mais uma pessoa pedindo ajuda no semáforo, mais um que não foi socorrido a tempo no pronto-socorro, mais um jovem encarcerado, mais uma vítima de bullying que atirou contra os colegas de sala...
O lobo mau não é essencialmente mau, mas vai deixando esse lado ruim aflorar ao se deparar continuamente com um ambiente hostil, apático e aversivo. Nos adaptamos aos dias ruins, às filas de espera, à corrupção e, por fim, à maldade. O mundo não vai bem há tempos, mas não tenho tempo para pensar, ou sequer tentar mudar a situação, afinal, o lobo mau são os outros. A gente se acostuma, mas não deveria.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Tristeza não tem fim, carnaval sim



Com o fim do carnaval, o ano oficialmente começou no Brasil. É hora de encontrar as contas, os boletos e o que restou do salário. Deixar de lado o gliter e as fantasias para encarar o trabalho e a responsabilidade de continuar pagando impostos exorbitantes e criticar o governo nas redes sociais. Imagine se toda aquela multidão carnavalesca se reunisse para votar de maneira consciente neste ano?
Quanto riso, quanta alegria” seria um povo com educação e saúde de qualidade. Os palhaços no salão passariam a ser os políticos que tentar esconder dinheiro na cueca, no apartamento ou na compra de um tríplex. Onde estão agora aqueles foliões animados e unidos na hora de protestar nas urnas eletrônicas?
“Que tiro foi esse” que o povo tanto cantou, mas não enxergou? Nas ruas do Rio de Janeiro houve assaltos, arrastões e as balas perdidas que continuaram a encontrar novas vítimas, mas a música alta distraía o povo alegre demais para se preocupar. Aliás, são apenas alguns dias de festa onde se pode vestir e agir como quiser, porque tudo é permitido. A ideia é aproveitar ao máximo essa “liberdade” antes da chegada do ano novo brasileiro.
O feriado mal terminou e já se pensa no próximo. A concentração está toda na Copa do Mundo, em vez de nas eleições presidenciais. Tudo para fugir da rotina e dos aborrecimentos cotidianos de um pobre assalariado, que inclusive deveria estar focado é na reforma trabalhista para não precisar se vestir de palhaço desempregado no próximo carnaval.
Festejar é preciso sim, mas não se pode deixar cegar pela máscara da ignorância política. De nada adianta criticar o presidente na escola de samba e justificar seu voto depois. Cada coisa tem seu tempo e agora é hora de trabalhar pelos direitos trabalhistas, pela saúde, pela educação, pela segurança pública... Quantos outros tiros ainda deverão ser dados para que o povo ouça o caos por trás dos trios elétricos? “Vai, malandra!”, é hora de mexer o “popozão” e fazer valer sua liberdade de expressão política também.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Time’s Up!



Na última cerimônia do Globo de Ouro, as artistas norte-americanas vestiram preto para apoiar o movimento “TimesUp”, uma iniciativa para enfrentar o assédio sexual ocorrido nos ambientes de trabalho, além de defender a ideia de igualdade de direitos, oportunidades e remuneração para as mulheres, que ainda precisam lutar pelo seu espaço no mundo corporativo. O movimento ainda inclui a arrecadação de um fundo de defesa legal para apoiar homens e mulheres que foram assediados em seu ambiente de trabalho. Mas, afinal, o que é assédio?
O assédio, que pode ser moral ou sexual, é um conjunto de atitudes que expõem alguém a situações humilhantes e constrangedoras em seu local de trabalho. O desrespeito de um diretor da empresa para com um funcionário, a desvalorização da competência do colaborador e insinuações sexuais para com um colega de trabalho caracterizam esse agravo relacionado ao trabalho.
A verdade é que todos estão sujeitos ao assédio moral no trabalho, porém o sexual é muito mais comum em mulheres. Imagine trabalhar em um local onde você recebe menos por ter nascido mulher, ser desqualificada por não saber fazer serviço pesado e ainda receber “cantadas” do seu chefe. Se para os homens já é difícil ser xingado por não ser competente o suficiente, imagina para as mulheres ainda correrem o risco de serem abusadas.
Ao contrário do que muitos pensam, o feminismo defende a igualdade de direitos. Apesar das lutas feministas terem se iniciado no final do século XIX e início do XX com a luta pelo direito ao voto, as mulheres ainda precisam lutar para se posicionarem no mercado de trabalho. A diferença salarial é frequentemente justificada pelo fato de que a mulher pode engravidar e prejudicar o andamento do serviço. Mas e os homens? Não podem a vir se machucar no ambiente de trabalho e necessitarem de afastamento, também prejudicando a produção?
A sociedade (ainda) é patriarcal. Os meninos não podem chorar e devem ser os “chefes” da casa, enquanto as meninas devem ter filhos e não uma profissão. Assim, a ideia de cultura inclinada ao machismo é ensinada, ainda que inconscientemente, desde cedo por meio de brinquedos infantis, onde as meninas brincam de casinha e os meninos dirigem carros. Quando é que realmente conseguiremos desconstruir a ideia de que capacidade tem a ver com gênero? Time’s Up! O tempo é agora!

sábado, 16 de dezembro de 2017

Seja feita a “minha” vontade


Esqueçam o famoso “na volta a gente compra”. As crianças fazem birra, xingam os pais e ainda ganham o desejado presente de natal, sem se importar se os demais membros da família conseguirão ganhar algo também. A ditadura do “eu quero, porque sim” toma cada vez mais espaço na sociedade de consumo e a publicidade não perde tempo em acolher seus mais fiéis clientes: as crianças.
No documentário “Criança, A Alma do Negócio”, de Estela Renner e Marcos Nisti, são apresentados diversos vídeos mostrando como as crianças são as maiores incentivadoras do consumismo dentro dos lares brasileiros. Elas assistem a uma variedade de comerciais induzindo à compra de brinquedos, roupas, sapatos e por aí vai. Elas podem não saber ler, mas já conseguem identificar o logo do McDonalds.
Os pais por sua vez, acabam cedendo às vontades dos pequenos; afinal, eles precisam trabalhar para garantir um futuro melhor para seus filhos e não têm tempo para brincar com eles. Sendo assim, começam a satisfazer seus desejos para vê-los felizes, sem saber que estão passando a falsa impressão de que sair às compras é sinônimo de alegria. Mas não se preocupem, a culpa não é somente de vocês, afinal, todos estamos inseridos numa sociedade capitalista...
A satisfação em encher o carrinho com compras é menos duradoura do que as diversas prestações do parcelamento dos bens de consumo adquiridos. Isso explica uma sociedade insatisfeita e “vazia” que sempre quer mais. O filme “Clube da Luta” de David Fincher ilustra esse tema com algumas colocações válidas: “Temos trabalhos que odiamos para comprar coisas que não precisamos.”

Assim, cada vez mais o Natal tem presentes e menos presença. Afinal, estamos todos procurando uma roupa bonita para passar o feriado sentado no sofá mexendo no celular. A mídia continuará impondo o consumo, o comportamento de compra, no entanto, é algo aprendido, e nada melhor como o exemplo dos pais dentro de casa. Retomar a tradição de conversar com os filhos é o maior presente, afinal, independente da religião, o espírito natalino fala é de amor.

sábado, 18 de novembro de 2017

Sobre os monstros em cada um de nós



Corrupção, sequestro, suicídio... violência gerando violência. “O mundo está ao contrário e ninguém reparou.” Aprendemos a justificar um erro com uma mentira e a resolver um problema apontando um culpado. Afinal, em um mundo caoticamente imoral, mais uma mentirinha nem vai fazer diferença. E assim damos continuidade ao ciclo de violência social, psicológica e física.

Ao longo da vida, acumulamos medos, incertezas e fracassos, os quais não podemos expor, afinal, falar sobre nossas inseguranças é sinal de fraqueza. Guardamos mágoas, raiva e traumas até não caber mais em nós. Então explodimos. Jogamos violentamente para fora o que não conseguimos mais conter e quem estiver por perto que desvie do “sabugo”. Embora seja difícil aceitar, somos frágeis e essa catarse periódica está aí para nos mostrar isso.
Acontece que cada um tem uma experiência de vida, portanto cada um tem uma maneira própria de expulsar esses traumas de si. Algumas pessoas são mais agressivas, outra um pouco mais contidas, alguns arremessam a fúria nos outros e outros implodem, acabando consigo mesmos. A verdade dolorida é que, no fundo, reconhecemos esses gestos de agressividade – em maior ou menor grau - também dentro de nós. E isso nos assusta.
Não sabemos do que somos capazes quando estamos com raiva. No momento de fúria, xingamos, batemos, brigamos e não nos reconhecemos. É como se estivéssemos “fora de si”. Depois da tormenta, a calmaria assusta. Podemos ver às claras nossos receios, agora menos fantasmagóricos e mais nítidos. Nosso medo tem cara, tem cheiro, tem memória. Nossa fragilidade se apresenta para nós e não sabemos como aceitá-la, afinal, fomos criados para sermos fortes.
Nessa dificuldade em aceitar nossos monstros, vamos culpando os políticos pela corrupção (sem pensar que nós os elegemos), inventamos uma dor de cabeça para não darmos andamento em uma discussão (que iniciamos) e mentimos para o chefe sobre uma morte na família para sermos dispensados do trabalho. Encarar a verdade é mais aterrorizante do que um filme de suspense.
Mas é preciso. É necessário compreender que se o mundo está do avesso, é porque também demos nossa contribuição para tal. Fosse fazendo algo ou deixando de fazer. Deixar de dar atenção a um filho o deixará triste. Ele expressará essa tristeza na escola, praticando bullying com um colega de sala. Essa colega se irritará e maltratará um cachorro, que morderá seu dono, que o sacrificará. Tudo é um ciclo. Aceitar seus monstros e respeitar os dos outros gera aceitação e uma possibilidade de reparar o mundo, tirando-o do lado avesso.

sábado, 14 de outubro de 2017

Crônicas de uma tragédia anunciada


O transtorno mental não tem fisionomia. A doença é silenciosa, mas presente, e cresce lentamente como uma flor na mente da pessoa, criando raízes obscuras e cinzas. O caso do vigia que ateou fogo na creche em Janaúba, o atirador em que matou pessoas durante um show em Las Vegas e outros tantos homicídios e suicídios não são apenas tragédias... são mortes anunciadas.
Uma doença psiquiátrica não se desenvolve em poucos dias. É necessário uma quantidade e uma duração de sinais e sintomas, além de considerável prejuízo na vida social, profissional e acadêmica da pessoa. O vigia já havia sido diagnosticado em 2014 com “transtorno delirante persecutório”. O atirador americano tinha 42 armas em casa. E o que foi feito? Deram atenção ou acharam frescura a pessoa pensar que estava sendo perseguida? Acharam algo normal colecionar tantas armas?
A doença está na mente, mas as causas estão também no ambiente. Onde estavam os entes queridos desses homens? Onde estava o suporte social que eles tanto precisavam? Quem se dispôs a ouvir seus problemas e angústias? Não é apenas uma sessão com o psicólogo que mudará a vida da pessoa. Não é uma consulta com o psiquiatra que resolverá o problema com um remédio. Assim como outras doenças, o transtorno mental é coisa séria e requer um tratamento adequado.
Ninguém fica triste, sem motivação ou solitário porque quer. São diversos acontecimentos que levam a pessoa a se sentir assim. Em um ano é a perda de um ente querido, um assalto, anos depois o desemprego, a separação... nada acontece e passa. A vida é a mesma e a história apenas continua. E a pessoa tem que absorver tudo isso, lidar com o dia a dia desgastante e seguir em frente (e de preferência sorrindo). Afinal todo mundo sofre não é mesmo? Então cada um com seus problemas.
O discurso é sempre o mesmo: “Fulano nunca deu sinais de que iria fazer isso. Parecia tão feliz esses dias.” O transtorno mental não tem fisionomia. Esqueçam o clichê da depressão como alguém triste pensando em acabar com a vida. Abandonem a ideia do psicopata como um indivíduo frio e calculista que sempre maltratou os animais. Cada transtorno tem suas expressões e silêncios. Basta parar a correria de dizer “Bom dia! Tudo bem?” e nem esperar a resposta do outro. Você pode evitar uma tragédia anunciada com um simples gesto de atenção.

sábado, 16 de setembro de 2017

“O transporte é público, meu corpo não”


Há cerca de duas semanas uma mulher foi vítima de assédio sexual no ônibus em SP. O agressor, que já foi preso outras quatro vezes por motivo semelhante, foi solto e repetiu o crime em menos de uma semana. No entanto, para o juiz que julgou o caso, “não houve constrangimento.” Se passar vergonha não é algo constrangedor, é o que então?
Todos os dias centenas de mulheres são incomodadas nas ruas com algum comentário machista, um assovio, uma cantada... O fato de andar sozinha já faz os homens sentirem-se mais corajosos para tentar uma aproximação. Caso haja uma retaliação, o agressor justifica-se dizendo que a vestimenta da mulher era provocativa e por isso ela estaria se insinuando. E desde quando SOMENTE a roupa é um convite para algo a mais?     
Essa desculpa, apesar de obsoleta, continua sendo usada para sustentar machismo e o modelo de sociedade patriarcal. Os meninos não devem chorar e devem ser os “chefes” da casa, enquanto as meninas devem ter filhos e não uma profissão. Assim, a ideia de cultura inclinada ao machismo é ensinada, ainda que inconscientemente, desde cedo por meio de brincadeiras infantis e famosos clichês, como: “Comporte-se como uma mocinha” ou “Menino é mais arteiro mesmo.” Em outras palavras, homem pode tudo; mulher nem tudo.
É nessa ideia internalizada de sociedade patriarcal que muitas mulheres suportam o assédio sexual e até mesmo a violência doméstica. A vergonha e o medo da denúncia levam a mulher a justificar o crime dizendo que ela deve ter feito algo para “merecer” esse castigo. Suportar as investidas de um superior no ambiente de trabalho, os assovios ao atravessar a rua...

O transporte é público, meu corpo não” é o que compartilhavam diversas mulheres nas redes sociais. O direito constitucional da liberdade encontra-se ameaçado. Com que tranquilidade se vai de casa ao trabalho se a cada 11 minutos uma mulher é violentada no país? Para que denunciar se o juiz poderá alegar que não houve constrangimento? O sentimento de vergonha é irreparável. E em pleno 2017, ainda precisamos defender nossos direitos de igualdade e liberdade.