sábado, 26 de maio de 2018

De onde vem tanta violência?



Professores universitários sequestrados no Rio de Janeiro e mais feridos em outro tiroteio numa escola nos EUA. Vivemos um tempo em que gente tem medo de gente e todo mundo tem medo da vida. Os muros cada vez mais altos e a discussão sobre a legalização de armas não solucionam o problema e a tensão só aumenta. Em um ambiente inseguro, o medo se torna irmão do desespero e o desespero, pai da violência.
Há quem diga que você não sabe do que é capaz quando exposto a uma situação extrema de violência. Há quem reage, quem foge e quem fica paralisado. Enquanto um se apodera do desespero e atira contra os colegas de sala, o outro se esconde no banheiro da escola. O problema maior é que quanto mais expostos estamos à violência, maior as chances de nos habituarmos a ela e, consequentemente, nos tornarmos agressores em potencial.
As tragédias são acompanhadas pela TV no horário de almoço. Não temos nem tempo para absorver sobre o homicídio que acabamos de ouvir e já é apresentada uma notícia de sequestro. Viver como prisioneiros em nossas próprias casas não é justo, então encaramos o mundo e torcemos para sobrevivermos a mais um dia. O problema é que o sangre frio que aprendemos a ter para aguentar pequenos abusos cotidianos uma hora esquenta, e a raiva nem sempre tem uma direção certa.
Uma discussão no trânsito, uma briga na escola pelo bullying sofrido, o assalto para garantir o dinheiro para a refeição do dia... e as crianças acompanhando tudo isso “de camarote”, aprendendo com o exemplo dos pais que maltratam a faxineira da casa, com a novela que aborda o tema do suicídio e com outros jovens que defendem a liberdade de não ser obrigado a nada.
A violência vem da repetição de pequenos abusos, do desespero e do medo. A violência é aprendida e aprendemos que é melhor reagir do que ser surpreendido, não é mesmo? O terror cotidiano nos ensinou a fazer valer o “olho por olho, dente por dente”. Medrosos, nos armamos, e o gatilho está prestes a explodir o palavrão, o soco, o tiro. Quem será o próximo alvo da nossa raiva?

sábado, 28 de abril de 2018

A falsa segurança da zona de conforto


Acomodação. Se estamos bem onde estamos, para que mudar? E, ainda que não estejamos tão bem assim, será que vale a pena arriscar? A zona de conforto nos dá a ilusão de segurança, fazendo-nos pensar que sabemos o que estamos fazendo (ainda que não tenhamos a menor ideia) e que não há perigo algum nesse lugar falsamente seguro no qual estamos. No entanto, em algum momento, a acomodação passa a incomodar. E agora, como proceder?
A correria do dia a dia parece camuflar nossas escolhas cotidianas de levantar mais cedo para preparar o café ou dormir mais alguns minutinhos e ir em jejum ao serviço. Não percebemos, mas todos os dias optamos pelo que vamos comer no almoço, se vamos à academia ou se tentamos dormir mais cedo em vez de terminar aquele filme. Podem ser pequenas, mas são decisões que, inevitavelmente, excluem as demais opções.
Fazer escolhas nem sempre é fácil. Optar por um caminho é consequentemente deixar outro para trás e enquanto não se escolhe, vive-se com a possibilidade. No entanto, precisamos escolher uma profissão, um lugar para sair no sábado à noite, o nome de um filho... Não adianta fugir, para não viver em um marasmo, temos que fazer escolhas que envolvem arriscar-se no desconhecido.
Mas onde está a coragem de sair desse cantinho confortável que já conhecemos tão bem? A motivação acaba sendo muito mais externa, geralmente quando você perde algo que até então trazia essa falsa segurança, como um emprego, por exemplo. Quantas pessoas trabalham em cargos e locais que não gostam, mas não se esforçam para tentar algo melhor? É somente quando ficam desempregadas que passam a ter essa liberdade forçada de poder optar por algo novo.
Mas por que esperar a vida nos dar essa rasteira se no fundo já sabemos que estamos insatisfeitos com a situação? É preciso enxergar que a zona de conforto nada mais é do que nossa maneira de nos proteger contra o medo do desconhecido. Pense no abandono da zona de conforto como uma liberdade de escolha, tão idolatrada nos dias atuais. Escolha ser livre e optar pelo melhor caminho para você mesmo em vez de esperar um imprevisto forçado da vida te tirar o chão.

sábado, 17 de março de 2018

“Quem tem medo do lobo mau?”



Balas perdidas no Rio de Janeiro, bombardeios na Síria, abuso infantil... as pessoas estão perdendo sua humanidade. A honestidade e o respeito escorrem pelo ralo ao ler ou assistir qualquer jornal, onde a violência tem lugar de destaque e já não choca mais quase ninguém. Deixamos a inocência da Chapeuzinho Vermelho de lado e nos tornamos o Lobo Mau: enganamos os outros e devoramos a empatia.
Thomas Hobbes tornou célebre a frase “O homem é o lobo do homem”, do dramaturgo romano Platus, ao reafirmar que “o homem é o maior inimigo do próprio homem”. Em vez de humanidade, o homem aproxima-se da selvageria animal ao agir com desrespeito e violência cometendo atrocidades contra a própria espécie. Aparentemente não há mais pudor em matar, abusar, torturar, roubar...
Há três anos, a foto do menino Aylan desfalecido na praia estampava as manchetes de jornais e revistas. Ainda hoje, muitas crianças sírias continuam sendo alvo dos bombardeios e das metralhadoras apontadas diretamente para suas famílias. As “balas perdidas” (que têm endereço e sobrenome) continuam a destruir comunidades e esperanças, sem previsão de trégua. Não é só uma fase, a intolerância e a guerra são contínuas (porque queremos).
O ser humano tem uma habilidade enorme para adaptar-se. O que, a princípio, é uma qualidade, também se torna sinônimo de fraqueza ao ver que, sem perceber, nos acomodamos com o que nos incomoda. Mais uma pessoa pedindo ajuda no semáforo, mais um que não foi socorrido a tempo no pronto-socorro, mais um jovem encarcerado, mais uma vítima de bullying que atirou contra os colegas de sala...
O lobo mau não é essencialmente mau, mas vai deixando esse lado ruim aflorar ao se deparar continuamente com um ambiente hostil, apático e aversivo. Nos adaptamos aos dias ruins, às filas de espera, à corrupção e, por fim, à maldade. O mundo não vai bem há tempos, mas não tenho tempo para pensar, ou sequer tentar mudar a situação, afinal, o lobo mau são os outros. A gente se acostuma, mas não deveria.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Tristeza não tem fim, carnaval sim



Com o fim do carnaval, o ano oficialmente começou no Brasil. É hora de encontrar as contas, os boletos e o que restou do salário. Deixar de lado o gliter e as fantasias para encarar o trabalho e a responsabilidade de continuar pagando impostos exorbitantes e criticar o governo nas redes sociais. Imagine se toda aquela multidão carnavalesca se reunisse para votar de maneira consciente neste ano?
Quanto riso, quanta alegria” seria um povo com educação e saúde de qualidade. Os palhaços no salão passariam a ser os políticos que tentar esconder dinheiro na cueca, no apartamento ou na compra de um tríplex. Onde estão agora aqueles foliões animados e unidos na hora de protestar nas urnas eletrônicas?
“Que tiro foi esse” que o povo tanto cantou, mas não enxergou? Nas ruas do Rio de Janeiro houve assaltos, arrastões e as balas perdidas que continuaram a encontrar novas vítimas, mas a música alta distraía o povo alegre demais para se preocupar. Aliás, são apenas alguns dias de festa onde se pode vestir e agir como quiser, porque tudo é permitido. A ideia é aproveitar ao máximo essa “liberdade” antes da chegada do ano novo brasileiro.
O feriado mal terminou e já se pensa no próximo. A concentração está toda na Copa do Mundo, em vez de nas eleições presidenciais. Tudo para fugir da rotina e dos aborrecimentos cotidianos de um pobre assalariado, que inclusive deveria estar focado é na reforma trabalhista para não precisar se vestir de palhaço desempregado no próximo carnaval.
Festejar é preciso sim, mas não se pode deixar cegar pela máscara da ignorância política. De nada adianta criticar o presidente na escola de samba e justificar seu voto depois. Cada coisa tem seu tempo e agora é hora de trabalhar pelos direitos trabalhistas, pela saúde, pela educação, pela segurança pública... Quantos outros tiros ainda deverão ser dados para que o povo ouça o caos por trás dos trios elétricos? “Vai, malandra!”, é hora de mexer o “popozão” e fazer valer sua liberdade de expressão política também.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Time’s Up!



Na última cerimônia do Globo de Ouro, as artistas norte-americanas vestiram preto para apoiar o movimento “TimesUp”, uma iniciativa para enfrentar o assédio sexual ocorrido nos ambientes de trabalho, além de defender a ideia de igualdade de direitos, oportunidades e remuneração para as mulheres, que ainda precisam lutar pelo seu espaço no mundo corporativo. O movimento ainda inclui a arrecadação de um fundo de defesa legal para apoiar homens e mulheres que foram assediados em seu ambiente de trabalho. Mas, afinal, o que é assédio?
O assédio, que pode ser moral ou sexual, é um conjunto de atitudes que expõem alguém a situações humilhantes e constrangedoras em seu local de trabalho. O desrespeito de um diretor da empresa para com um funcionário, a desvalorização da competência do colaborador e insinuações sexuais para com um colega de trabalho caracterizam esse agravo relacionado ao trabalho.
A verdade é que todos estão sujeitos ao assédio moral no trabalho, porém o sexual é muito mais comum em mulheres. Imagine trabalhar em um local onde você recebe menos por ter nascido mulher, ser desqualificada por não saber fazer serviço pesado e ainda receber “cantadas” do seu chefe. Se para os homens já é difícil ser xingado por não ser competente o suficiente, imagina para as mulheres ainda correrem o risco de serem abusadas.
Ao contrário do que muitos pensam, o feminismo defende a igualdade de direitos. Apesar das lutas feministas terem se iniciado no final do século XIX e início do XX com a luta pelo direito ao voto, as mulheres ainda precisam lutar para se posicionarem no mercado de trabalho. A diferença salarial é frequentemente justificada pelo fato de que a mulher pode engravidar e prejudicar o andamento do serviço. Mas e os homens? Não podem a vir se machucar no ambiente de trabalho e necessitarem de afastamento, também prejudicando a produção?
A sociedade (ainda) é patriarcal. Os meninos não podem chorar e devem ser os “chefes” da casa, enquanto as meninas devem ter filhos e não uma profissão. Assim, a ideia de cultura inclinada ao machismo é ensinada, ainda que inconscientemente, desde cedo por meio de brinquedos infantis, onde as meninas brincam de casinha e os meninos dirigem carros. Quando é que realmente conseguiremos desconstruir a ideia de que capacidade tem a ver com gênero? Time’s Up! O tempo é agora!

sábado, 16 de dezembro de 2017

Seja feita a “minha” vontade


Esqueçam o famoso “na volta a gente compra”. As crianças fazem birra, xingam os pais e ainda ganham o desejado presente de natal, sem se importar se os demais membros da família conseguirão ganhar algo também. A ditadura do “eu quero, porque sim” toma cada vez mais espaço na sociedade de consumo e a publicidade não perde tempo em acolher seus mais fiéis clientes: as crianças.
No documentário “Criança, A Alma do Negócio”, de Estela Renner e Marcos Nisti, são apresentados diversos vídeos mostrando como as crianças são as maiores incentivadoras do consumismo dentro dos lares brasileiros. Elas assistem a uma variedade de comerciais induzindo à compra de brinquedos, roupas, sapatos e por aí vai. Elas podem não saber ler, mas já conseguem identificar o logo do McDonalds.
Os pais por sua vez, acabam cedendo às vontades dos pequenos; afinal, eles precisam trabalhar para garantir um futuro melhor para seus filhos e não têm tempo para brincar com eles. Sendo assim, começam a satisfazer seus desejos para vê-los felizes, sem saber que estão passando a falsa impressão de que sair às compras é sinônimo de alegria. Mas não se preocupem, a culpa não é somente de vocês, afinal, todos estamos inseridos numa sociedade capitalista...
A satisfação em encher o carrinho com compras é menos duradoura do que as diversas prestações do parcelamento dos bens de consumo adquiridos. Isso explica uma sociedade insatisfeita e “vazia” que sempre quer mais. O filme “Clube da Luta” de David Fincher ilustra esse tema com algumas colocações válidas: “Temos trabalhos que odiamos para comprar coisas que não precisamos.”

Assim, cada vez mais o Natal tem presentes e menos presença. Afinal, estamos todos procurando uma roupa bonita para passar o feriado sentado no sofá mexendo no celular. A mídia continuará impondo o consumo, o comportamento de compra, no entanto, é algo aprendido, e nada melhor como o exemplo dos pais dentro de casa. Retomar a tradição de conversar com os filhos é o maior presente, afinal, independente da religião, o espírito natalino fala é de amor.

sábado, 18 de novembro de 2017

Sobre os monstros em cada um de nós



Corrupção, sequestro, suicídio... violência gerando violência. “O mundo está ao contrário e ninguém reparou.” Aprendemos a justificar um erro com uma mentira e a resolver um problema apontando um culpado. Afinal, em um mundo caoticamente imoral, mais uma mentirinha nem vai fazer diferença. E assim damos continuidade ao ciclo de violência social, psicológica e física.

Ao longo da vida, acumulamos medos, incertezas e fracassos, os quais não podemos expor, afinal, falar sobre nossas inseguranças é sinal de fraqueza. Guardamos mágoas, raiva e traumas até não caber mais em nós. Então explodimos. Jogamos violentamente para fora o que não conseguimos mais conter e quem estiver por perto que desvie do “sabugo”. Embora seja difícil aceitar, somos frágeis e essa catarse periódica está aí para nos mostrar isso.
Acontece que cada um tem uma experiência de vida, portanto cada um tem uma maneira própria de expulsar esses traumas de si. Algumas pessoas são mais agressivas, outra um pouco mais contidas, alguns arremessam a fúria nos outros e outros implodem, acabando consigo mesmos. A verdade dolorida é que, no fundo, reconhecemos esses gestos de agressividade – em maior ou menor grau - também dentro de nós. E isso nos assusta.
Não sabemos do que somos capazes quando estamos com raiva. No momento de fúria, xingamos, batemos, brigamos e não nos reconhecemos. É como se estivéssemos “fora de si”. Depois da tormenta, a calmaria assusta. Podemos ver às claras nossos receios, agora menos fantasmagóricos e mais nítidos. Nosso medo tem cara, tem cheiro, tem memória. Nossa fragilidade se apresenta para nós e não sabemos como aceitá-la, afinal, fomos criados para sermos fortes.
Nessa dificuldade em aceitar nossos monstros, vamos culpando os políticos pela corrupção (sem pensar que nós os elegemos), inventamos uma dor de cabeça para não darmos andamento em uma discussão (que iniciamos) e mentimos para o chefe sobre uma morte na família para sermos dispensados do trabalho. Encarar a verdade é mais aterrorizante do que um filme de suspense.
Mas é preciso. É necessário compreender que se o mundo está do avesso, é porque também demos nossa contribuição para tal. Fosse fazendo algo ou deixando de fazer. Deixar de dar atenção a um filho o deixará triste. Ele expressará essa tristeza na escola, praticando bullying com um colega de sala. Essa colega se irritará e maltratará um cachorro, que morderá seu dono, que o sacrificará. Tudo é um ciclo. Aceitar seus monstros e respeitar os dos outros gera aceitação e uma possibilidade de reparar o mundo, tirando-o do lado avesso.