sábado, 12 de março de 2016

A passagem ao ato da postura cívica


O cenário político atual é de caos. Investigações em andamento, protestos nas redes sociais, manifestações sarcásticas bem do “jeitinho brasileiro” para lidar de modo bem-humorado com qualquer adversidade. O país está unido pela diferença de opinião. A questão, no entanto, não é a diversidade de pensamento, mas o discutir por ter o que falar, sem fundamento. Não somos educados na política.
Nosso sistema educacional é cada vez mais direcionado ao vestibular. Os estudantes devem decorar fórmulas matemáticas e datas históricas para somente usarem no Enem e nunca mais. Não nos ensinam a pensar; isso explica tanta dificuldade dos alunos nas questões de interpretação de texto e o famoso medo da redação. A banda britânica Pink Floyd fala dessa manipulação da educação na música “Another brick in the wall” (Outro tijolo no muro, em tradução livre).
É clichê dizer que é cômodo que os indivíduos não pensem, apenas reproduzam ideias “cultivadas” por quem exerce o poder juntamente com o apoio da mídia. Acontece que após tantas exposições de corrupção, essa massa se cansou e começou a usar de sua liberdade de expressão, mostrando todo o seu descontentamento com o país. O problema de não sermos educados na política, é que apenas sabemos dizer que não estamos satisfeitos com algo... não sabemos ao certo como apontar uma solução... então é só caos.
O que há de modo geral é discussão, não ação. Quando existe a ação propriamente dita, essa ocorre de maneira agressiva, pois não aprendemos postura cívica, a não ser para cantar o hino nacional na fila da escola. Passagem ao ato é um conceito psicanalítico definido como uma “atitude imediata em que uma intenção dá lugar à sua realização motora”, em suma, é agir sem pensar (o que geralmente leva ao arrependimento).


A passagem ao ato em massa só leva ao caos coletivo, não trazendo de fato uma solução para o problema, apenas manifestando o descontentamento da população.  Falar somente para exercer a liberdade de expressão e participar de manifestações só para tirar foto não significa fazer política. Isso apenas mostra a necessidade de atenção para a postura cívica de um país que perde sua ética a cada fase da operação lava jato. 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O medo da escolha


Ser adulto envolve fazer escolhas, e isso é assustadoramente difícil. Optar por um caminho é consequentemente deixar outro para trás e enquanto não se escolhe, vive-se com a possibilidade. Mas a vida exige escolhas, e a pressão social pode lhe fazer escolher o caminho mais “prudente”, não necessariamente o mais feliz.
Com o passar do tempo (que por sinal parece passar mais rapidamente conforme envelhecemos), sentimos a necessidade, senão desespero, em fazer as escolhas certas. Refletimos se estamos onde imaginávamos em nossos sonhos ou se continuamos naquele emprego temporário ainda esperando pela oportunidade de finalmente fazer o que queremos. Mais um dia de trabalho sem motivação e novamente o sonho é adiado pelo medo de arriscar...
Chega um momento em que o que era para ser temporário torna-se cômodo e já serve para pagar as contas e sair de férias, então, pra que arriscar? Pouco a pouco, o indivíduo vai perdendo a vontade de recomeçar e perde a coragem de dizer não ao comodismo. Largar o emprego é loucura. É preferível uma monotonia certa a um prazer incerto. E mais um dia nos arrastamos até o trabalho, contando os dias para sexta-feira e invejando os que amam o que fazem.
Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser” sugere que há uma certa leveza em se fazer o que não gosta. Fazer aquilo que nos dá prazer é um fardo muito pesado, pois nos cobramos demais. No entanto, apesar do peso, a satisfação pelo resultado do trabalho obtido é extremamente gratificante e o fardo torna-se leve ao seguir o caminho que se quis, não aquele que foi obrigado.

Existe uma diferença entre viver e sobreviver. Trabalhar somente por obrigação é sinônimo de sobrevivência e leva a problemas de saúde a longo prazo, como depressão, transtorno de ansiedade e distúrbios psicossomáticos. É nesse momento que o sonho grita do fundo da alma e exige uma escolha. O “não” à sobrevivência é o “sim” à vida. Ter a coragem de sair de um ambiente onde você não se sente bem é conquistar a liberdade para seguir outro caminho que você talvez tenha planejado durante tantos anos.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Felicidade 10mg



Vinícius de Moraes e Tom Jobim já diziam: “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” Mas não há problema, a indústria farmacêutica já vem cuidando dessa questão, revolucionando a vida dos tristonhos e desanimados com Rivotril, Prozac, Ritalina... Ah, a tão almejada felicidade agora vem em pequenas doses em forma de comprimidos!
Existe uma geração mimada e imediatista. Quer tudo pra ontem, quer tudo da maneira que deseja, quer evitar o sofrimento a qualquer preço.  Ela foi criada por uma sociedade que supervaloriza o sucesso, a revolução tecnológica e a felicidade estampada nas redes sociais. Ela é artificialmente feliz. Acontece que essa geração não aguentou... e finalmente adoeceu.
Para tratar de todas as enfermidades, geralmente psicossomáticas (que têm origem psicológica) dessa geração, são prescritos cada vez mais medicamentos para suportar mais um dia de trabalho sem motivação ao invés de se procurar a causa do problema. Não se aceita a dor. Aliás, falar sobre o sofrimento para um psicólogo é justamente afirmar que se tem uma tristeza; e isso é inadmissível na nossa sociedade feliz. O filme “Geração Prozac” ilustra bem essa geração.
O medicamento pretende melhorar a qualidade de vida das pessoas que estejam com algum grau de sofrimento, seja físico ou psíquico. No entanto, atualmente, percebe-se o uso indiscriminado dos remédios para manutenção da saúde, ainda que não sejam necessários. Ocorre a mecanização da vida e a automatização dos sentimentos. Para lidar com o luto pela perda de um ente querido, receita-se um antidepressivo pela urgência de voltar a ser feliz socialmente e laboralmente funcional.

Enquanto a indústria farmacêutica lucra com a venda da “felicidade em comprimidos”, a geração fica cada vez mais refém da Ritalina, do Rivotril... e vive cada dia à espera de uma nova droga para a solução da ansiedade perante uma escolha de vida. Estamos viciados na felicidade artificial e esperamos a cura para todo o mal que nós próprios criamos. Precisamos urgentemente de uma reabilitação para aprendermos a lidar novamente com nossos próprios pensamentos e sentimentos, de modo a conseguirmos contradizer os pais da Bossa Nova naturalmente.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Está todo mundo louco?


A criança que adora correr e brincar é hiperativa. A pessoa que só pensa em dormir é depressiva. Já não há mais um meio termo. Se pararmos para analisar as descrições atuais de transtornos mentais descritos em manuais como DSM-V e CID-10, constataremos que todos somos doentes em algum grau.
Machado de Assis em 1882 já abordava essa questão em “O Alienista”. Ele conta a história de um médico que decide estudar a psiquiatria e funda a Casa Verde, um hospital psiquiátrico, onde ele internava qualquer pessoa que apresentasse um comportamento fora do comum. Com o tempo, o simples fato de a pessoa ser muito indecisa ou extremamente bajuladora era sinônimo de loucura. Ao longo da narrativa, o psiquiatra perde a noção entre normal e anormal, razão e loucura quando percebe que praticamente todos os habitantes da cidade estão internados.
“O Alienista” nos fala da patologização de comportamentos e personalidades. Cada um tem uma personalidade e um modo de se comportar baseados em fatores epigenéticos (influenciados tanto pela genética quanto pelo ambiente em que vive). Portanto, seu modo de ser não caracteriza necessariamente um transtorno mental. Aqui se faz necessário entender que apesar de podermos apresentar sintomas de alguns transtornos psiquiátricos, isso não significa que somos necessariamente doentes.
Algumas crianças são mais ativas que as outras, assim como algumas pessoas têm manias de organização, mas não significa que esses sujeitos sejam loucos. As estatísticas crescentes de transtornos mentais podem ter duas razões principais: o aumento de conhecimento por meio de estudos e a informação ao alcance de todos. O avanço das pesquisas auxilia no diagnóstico precoce de uma condição de saúde. Por outro lado, a informação a um clique de distância leva à banalização de diagnósticos. O normal da criança é brincar. Aquela que não brinca é autista, enquanto aquela que não sossega é hiperativa. Há diagnóstico para todos.

É preciso ter cuidado e avaliar se o comportamento da pessoa é realmente uma característica dela, portanto, constante, ou se é apenas reflexo da fase de desenvolvimento ou estimulação ambiental. É preciso uma avaliação profissional para diagnosticar tais transtornos, que são analisados com base na quantidade de sintomas e na qualidade de vida da pessoa, lembrando que cada caso é um caso.

sábado, 16 de janeiro de 2016

O medo de ter que recorrer ao plano B


São muitos candidatos para poucas vagas e é muita cobrança para pouco reconhecimento. Mais de cinco milhões de estudantes aguardavam ansiosamente o resultado do Enem e com ele, seu futuro brilhante... ou nem tanto assim. O nervosismo e a ânsia pela aprovação podem prejudicar o desempenho daqueles que tanto se dedicaram aos estudos.
A ansiedade é comum perante ideia de mudança. A expectativa leva a alterações físicas e mentais, como dificuldade de concentração, tensão muscular, dores de cabeça e gástricas, sudorese dentre outros. Quanto mais exigente é a pessoa, mais ela sofre o impacto desses sintomas, pois a cobrança própria é muito grande e, em uma sociedade competitiva, ninguém quer perder.
O desempenho é medido por meio de uma prova teórica, não considerando outros aspectos como inteligência emocional e capacidade de colocar em prática a teoria, por exemplo. Cada pessoa tem facilidade em um tipo de avaliação, o que faz do vestibular uma ferramenta igual, porém não justa. O recomendado a todos é apenas o autocontrole.
Como controlar a ansiedade? Reserve um tempo para o lazer. Sabe aquela expressão de que o jovem “ficou louco de tanto estudar”? Então, sem uma pausa, seu cérebro não agüenta e a pessoa começa a apresentar uma ruptura com o mundo externo, já que o único pensamento no momento é o vestibular. Assim, a pessoa pode começar a falar sozinha, esquecer de se alimentar e de dormir. Lembre-se que foco é diferente de exclusividade. Dê mais atenção aos estudos, mas não se esqueça de parar para respirar.

O psicológico interfere imensamente no desempenho em momentos de cobrança e a falta do controle da ansiedade pode lhe fazer esquecer toda a matéria estudada. Por isso, o importante é lembrar que o desempenho no vestibular não define se a pessoa terá sucesso ou fracasso na vida. A prova é apenas uma porta de entrada para uma nova fase, assim como depois virão os concursos públicos na vida adulta. Não tenha medo de recorrer ao plano B, seja este ir direto para o cursinho ou tirar umas férias curtas para relaxar antes de voltar aos estudos.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Sonhar mais um sonho impossível?


Após um ano de tantas perdas: de saúde, de emprego, de entes queridos... 2016 renova a promessa de esperança. Em tempos onde se clama por justiça, paz e respeito, a crença de que o ano novo possa ser diferente fica abalada. Espera-se a vinda do salvador para nos redimir, procura-se uma Geni para nos salvar e tenta-se não perder a fé. Como é dito no filme Amélie Poulain, “são tempos difíceis para os sonhadores”.
Vivemos na era da ansiedade. Depositamos ao mesmo tempo medo e esperança no futuro e colocamos intensidade na falta de tempo. Queremos tudo pra ontem, apesar de deixarmos tudo para depois. Sonhamos, mas não temos força para realizar sozinhos, afinal, “sonho que se sonha junto é realidade”. Precisamos uns dos outros, mas não sabemos mais como nos ajudar, afinal, perdemos a empatia.
Há quem diga que uma das causas para os males cotidianos é a falta de empatia entre as pessoas, ou seja, a incapacidade de se colocar no lugar do outro. Desse modo, impera o ego, e consequentemente, o descaso pela vida em sociedade. Desviam verbas, violentam e matam sem pensar na dor do outro. Sendo assim, como acreditar em um amanhã melhor?
Alguns psicólogos vêem a esperança como um sinal de saúde mental. A psicologia positiva afirma que a pessoa otimista, ou seja, aquela que tem sentimentos de esperança é capaz de criar caminhos para se chegar à meta desejada. A depressão, por exemplo, seria a completa falta desse sentimento. Em suma, tudo se resume em acreditar.

Sabe aquele famoso ditado: “a esperança é a última que morre”? Pois então, é verdade. Por mais cansados que estejamos de tantas tristezas, todo ano ainda insistimos em fazer aquela famosa listinha com objetivos e promessas para o ano novo. Isso é ter esperança. Ainda que aquela dieta tenha durado apenas alguns meses ou que você tenha abandonado as aulas de alguma matéria na faculdade, você promete se formar e se propõe a perder somente o peso realmente necessário. Podem ser tempos difíceis para os sonhadores, mas talvez não seja impossível acreditar.

sábado, 19 de dezembro de 2015

À procura de Geni


Desastres naturais, intolerância, enfermidades, corrupção... em tempos de catástrofes é até difícil ter o espírito natalino... a única ponta de esperança que ainda nos deixa de pé é a possível vinda de um salvador... porque ninguém sabe como quebrar esse círculo vicioso de destruição.
O filme “Melancolia” de Lars Von Trier retrata o fim do mundo quando um planeta está prestes a se chocar contra a Terra. O nome desse planeta é semelhante ao título do filme que é também um estado psíquico de ânimo doloroso, segundo Freud (1915). De modo geral, melancolia é a perda total do interesse no mundo exterior o que leva a um torpor de emoções. Em palavras cotidianas, é o completo vazio existencial.
A constante exposição à violência, à falta de respeito e às mortes levam a um sentimento de frieza. A princípio, evita-se olhar o morador de rua até perceber que há outro no próximo quarteirão. O sentimento de culpa que a princípio temos pelas injustiças sociais se transformam em frieza para que nosso consciente não sofra com essa punição inconsciente de que “eu poderia fazer algo para mudar isso.” Assim, o comportamento de fuga e o sentimento de frieza constante levam a um desgaste emocional; não há mais investimento psíquico em algo sem retorno. Entra-se então em um marasmo, mais conhecido como vazio.
A era da informação, da rapidez e da falta de tempo contribuem para a indiferença. O clichê: “Isso é coisa de adolescente” implica que todo jovem é igual e que essa fase vai passar, nem adianta tentar conversar. Coloca-se a culpa na idade e distrai-se trabalhando sem parar. O trabalho virou fuga, não apenas fonte de sustento. Com o crescente desemprego, as pessoas foram obrigadas a voltar a ver o que tentavam esquecer fechando o vidro do carro para a pessoa pedindo esmola.

Apesar desse vazio, a culpa permanece em nós, mas não conosco; a transferimos para outras pessoas, assim como também projetamos a esperança de salvação. No fundo, queremos mudar a situação, mas não temos força para começar, pois aprendemos a desviar a atenção do que nos incomoda. É então que em meio a tantas tragédias, busca-se um “salvador”. A simbologia do Natal nos faz querer renovar essa força interior, essa esperança de que senão Jesus, ao menos qualquer Geni possa nos redimir do temível zepelim.