sábado, 5 de dezembro de 2015

Cor de rosa choque


Já dizia Rita Lee: “Sexo frágil/Não foge à luta”. No dia 25 de novembro foi comemorado o dia internacional da não violência contra a mulher. Em meio às diversas manifestações relacionadas à chamada “Primavera das Mulheres”, milhares de mulheres utilizaram #MeuAmigoSecreto nas redes sociais para denunciar o machismo cotidiano.
De acordo com a ONU Mulheres (2015), a Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 realizou 634.862 atendimentos neste ano, dos quais, 63.090 foram relatos de violência. A Lei Maria da Penha foi uma importante conquista, mas apesar de quase todas as pessoas terem conhecimento dela, apenas algumas mulheres realmente a utilizam em seu favor. E por quê? Porque somos educadas para tal.
A sociedade é patriarcal. Os meninos não devem chorar, porque isso é coisa de mulher, enquanto as meninas devem ter filhos e não uma profissão. Assim, a ideia de cultura inclinada ao machismo é ensinada, ainda que inconscientemente, desde cedo por meio de brincadeiras infantis e famosos clichês, como: “Comporte-se como uma mocinha” ou “Menino é mais arteiro mesmo.” Em outras palavras, homem pode tudo; mulher nem tudo.
É nessa ideia internalizada de sociedade patriarcal que muitas mulheres suportam a violência doméstica. O medo da denúncia e de uma possível reação viril do companheiro levam a mulher a justificar o estupro dizendo que ela deve ter feito algo para “merecer” esse castigo. Nessa onda de medo, muitas mulheres encontraram nas redes sociais uma maneira sutil de denunciar as situações machistas a que são expostas.
Utilizando #meuamigosecreto, situações de machismo cotidiano foram expostas no Facebook. Dentre essas, estavam desde cantadas na rua e demissões devido à gravidez até estupro e tentativas de homicídio. Outra situação bastante exposta e comentada foi referente ao direito ao aborto, bastante difundida pelo dizer: “Meu corpo, minhas regras”. Essa manifestação tomou mais força quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, lançou o projeto de lei 5069/13, que sugere um maior rigor na punição ao aborto.

“Não acredito que estou protestando por isso em pleno 2015” é o que dizia o cartaz de uma manifestante. As lutas feministas tiveram início no final do século XIX e início do XX na busca pelo direito ao voto. Depois vieram as questões relativas à conquista da mulher no ambiente de trabalho e hoje a luta maior é em relação à violência doméstica. O foco muda com o passar dos anos, mas infelizmente ainda há muito que se discutir para se entender sobre igualdade de direitos. Até lá, o sexo frágil continuará nas ruas e redes sociais por um mundo um pouco mais cor de rosa choque.

sábado, 21 de novembro de 2015

Menos oração, mais ação


Brasil. França. Síria. Nos últimos meses, vê-se uma corrente de orações nas redes sociais por todas as vítimas dos acontecimentos em diversos países do mundo. A intenção é boa, o fato de chamar a atenção para as tragédias ajuda na conscientização, as pessoas têm a liberdade de expressão... mas isso não muda o que aconteceu.
Não é que não valha a pena discutir a luta pela paz, pelos direitos humanos e pela justiça. A questão é que a discussão fica apenas em alguns caracteres de uma rede social. Ela não sai do papel, e isso não faz diferença na prática.
A oração faz bem. Ela nos fortalece quando pensamos não ter mais força para lutar e seguir em frente. Assim, sentindo-nos mais fortes, voltamos a acreditar em nós mesmos e vamos à luta, consequentemente fazendo acontecer. Portanto, não adianta apenas rezar por esses países e não fazer algo para realmente ajudar. As pessoas da tragédia de Mariana precisam de água potável. A resolução de um dos problemas da população é simples: doe água. Isso faz a diferença.
Se pensarmos que foi exatamente a oração excessiva de terroristas islâmicos que ajudou esses intolerantes religiosos a terem força espiritual para amarrarem bombas em seus corpos e explodirem locais públicos em Paris, as correntes de oração do Facebook parecem não fazer mais tanto sentido.
Os moradores de Paris precisam de segurança. Os refugiados sírios precisam de teto. Os moradores de Mariana precisam de água. O que falta no mundo além da oração, é ação. Falta respeito acima de tudo. Respeito pelas diferenças religiosas, políticas e culturais.
Não são as imagens das bandeiras de Minas Gerais e da França nas fotos do Instagram que irão amenizar o luto dos familiares e amigos das vítimas. O luto estampado nas redes sociais não deve ser pelas vítimas, mas pelo respeito que morre a cada comentário racista e intolerante. Se estiver realmente abalado por tais tragédias, faça algo para que a liberdade seja respeitada.

sábado, 7 de novembro de 2015

Vai, e se der medo, vai com medo mesmo


A foto do corpo do menino Aylan à beira da praia foi até agora uma das imagens mais “viralizadas” dos refugiados sírios. A fragilidade do ser humano parece só chamar a atenção em situações extremas. O drama nosso de cada dia nos obriga a escolhas, que quase sempre estão envoltas do medo do desconhecido, mas às vezes enfrentar o medo é a única saída.
O drama da Síria já foi também vivido por diversos outros povos que tiveram de deixar seu local de origem na busca da esperança. Migrações decorrentes do tráfico de escravos, guerras mundiais, perseguições políticas e religiosas... todo o fluxo de indivíduos é decorrente de uma situação de desespero e esperança de mudança.
A chamada “globalização” induz à ideia de possibilidade. Logo, é cabível fazer as malas e partir com toda a família para um país das oportunidades. A questão é que para manter-se como esse “país-modelo”, é preciso que haja os países subdesenvolvidos, para poder-se comparar essas diferenças e manter as relações de poder. Em outras palavras, é preciso excluir para incluir. Primeiro gera-se uma desestabilização, depois cria-se uma ideologia de inclusão para “o bem geral da nação”. O problema é que não se esperava tamanha desestabilização. O intenso fluxo migratório esbarra na crise econômica e os estrangeiros podem “roubar” as poucas vagas de empregos existentes. Logo, as oportunidades não são universais.

Assim, a imagem do pequeno garoto na praia é apenas parte do retrato de um povo que busca a esperança do recomeço apesar do medo da partida. Esses migrantes deixaram não só o país, mas sua identidade cultural. Eles são estrangeiros em espaços desconhecidos e hostis. Os antes sírios, passam a ser refugiados, sem país, sem emprego, sem família. A perda da identidade, além da perda de um filho ao longo da travessia, gera uma desestabilização psíquica do ser humano, fazendo-o ter tanto medo a ponto de cegar-lhe e pensar que vale a pena arriscar a própria vida por não ter mais nada a perder.

sábado, 24 de outubro de 2015

“Jovens há mais tempo” no divã



Crochê? Eu quero é ir ao baile! Estatísticas indicam que a população idosa vem aumentando a tal ponto que em 2020, o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos, com um contingente superior a 30 milhões de pessoas. O envelhecimento tem um grande impacto na vida da pessoa devido às transformações comuns da idade, como as mudanças no corpo, na memória e nas relações sociais que fazem emergir novas emoções e sentimentos. É nesse contexto que muitos idosos procuram a psicoterapia para lidarem com a “melhor idade”.
Nesse turbilhão de mudanças e novas limitações, a população idosa busca entender-se para adaptar-se a um novo modo de vida. Os idosos procuram uma atividade física, um hobby, um baile e um divã. Eles procuram qualidade de vida e querem já, assim como adolescentes. Eles vivem uma nova “juventude”, onde buscam companhia, divertimento e aprendizagem.
De aprender algo novo a compreender como lidar com as diversas perdas sofridas ao longo da vida, muitos “jovens há mais tempo” estão buscando a psicoterapia. A Associação Americana de Psicologia (APA) estabeleceu algumas diretrizes para a prática psicológica no que diz respeito ao atendimento com idosos que incluem propostas de intervenções no formato de grupos. Alguns benefícios desses grupos terapêuticos são a análise das expectativas pessoais e grupais, avaliando as próprias realizações e competências, o que ajuda a melhorar a autoestima, garante o sentimento de pertencimento e proporciona elementos para autoconhecimento do indivíduo.

O atendimento psicológico pode ser feito em grupo ou individualmente, dependendo da demanda da pessoa. O importante é saber que quanto mais elevados a autoestima e o sentimento de autorrealização, mais saudável é o processo de envelhecimento. É uma simples questão de acrescentar vida aos dias ao invés de dias à vida. 

sábado, 10 de outubro de 2015

Que corpo é este?


Dyson nasceu menino, mas com dois anos e meio começou a querer usar vestidos de princesas. Coy com um ano e meio já se recusava a usar roupas de menino. No domingo passado, o Fantástico apresentou uma reportagem falando sobre os transgêneros: “pessoas que possuem o sexo biológico em não conformidade com seu sexo psicológico”. De modo geral, o corpo deles não os representa.
Os transgêneros vivem um drama existencial por terem a sensação de que nasceram no corpo errado. O cérebro os vê de uma maneira, enquanto as características biológicas apontam para outro gênero, o que gera uma angústia de não pertencimento a uma identidade socialmente aceitável. Para lidar com essa situação, esses indivíduos começam a se comportar da maneira como se sentem; o menino escolhe vestidos, enquanto a menina prefere bermudas. Mais tarde, eles podem recorrer a cirurgias plásticas para a mudança de sexo e terapias hormonais.
A grande questão, no entanto, é como lidar com os transgêneros. Refiro-me à pessoa por “ele” ou “ela”? O sujeito usará o banheiro masculino ou feminino? Condutas cotidianas passam a ser questionadas e o estigma social masculino/feminino parece não fazer mais tanto sentido. Desse modo, a compreensão de que cada um se vê e se comporta de uma determinada maneira é essencial para aceitar as diferentes identidades.

O respeito e o diálogo são imprescindíveis no entendimento dos diversos modos de ser das pessoas. Os trangêneros demonstram a não conformidade entre mente e corpo desde a primeira infância. Um olhar atento dos pais e a oportunidade de deixar a criança se mostrar como realmente se sente abre caminhos ao diálogo e consequente construção de um modo de lidar com o transgênero. Afinal, quem melhor do que eles mesmos para nos dizer se quer ser chamado de Maria ou de João?

sábado, 26 de setembro de 2015

Afinal, por que buscamos tanto essa tal de felicidade?


Somos carentes. Vivemos da falta, do vazio, da saudade. Sempre temos aquele “buraco” para preencher. Chamamos de fome, sono, paixão, saudade... menos de carência. Isso porque não queremos admitir esse sentimento. Preferimos viver preenchendo-o com doces, novelas e relacionamentos curtos do que reconhecer que esse buraco é parte de nós.
Acredite: todos têm esse vazio. Tal pode ser visto na constante busca da tal da felicidade. Ninguém a alcançada, pois ela é a completude em si. Buscar a felicidade é querer sentir-se completo, é atingir a perfeição. Em última análise, é utópico.
Essa falta é útil. Tal espaço pode ser preenchido por diversas coisas, variando com cada situação. Pode ser um abraço de um amigo que mora longe, aquele bolo de cenoura da sua mãe ou simplesmente a companhia dos amigos no fim de semana.
A felicidade nunca será alcançada, pois ela acontece constantemente cada vez que encontramos algo para preencher temporariamente esse vazio. É clichê porque é verdade: a felicidade está nas pequenas coisas. Só não enxergamos isso porque buscamos a grandeza, queremos sempre mais, desejamos o melhor.

Já dizia Freud: “Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.” Não procurar é aprender a viver, é conseguir entender que a felicidade não é o pote de ouro, mas sim o próprio arco-íris. Ela é o eterno equilíbrio de preencher e esvaziar aquele “buraco” no peito para poder completá-lo temporariamente com o que você necessita no momento. É saber-se carente e abraçar essa falta, que é cheia dela mesma.

sábado, 12 de setembro de 2015

Filho, cadê meu livro de colorir?


Atualmente existem mais de 50 mil publicações de fotos do livro de colorir “Jardim Secreto” no Instagram. Mas por que um simples livro de colorir anda fazendo tanto sucesso? O segredo desse jardim é seu público: quem anda colorindo são os adultos.
A velha brincadeira de criança tomou conta das redes sociais e se tornou um “fenômeno”. O motivo? Colorir é uma atividade lúdica. Segundo o psicanalista Winnicott: “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).”
Além de descobrir seu eu e desenvolvê-lo, a atividade lúdica, ou o brincar, tem um efeito “antiestresse”, servindo como válvula de escape para a correria cotidiana. Um livro em preto e branco lhe dá diferentes possibilidades de preenchimento dos vazios: os do livro com cores e o vazio interior com criatividade.
A retomada da atividade infantil pode ser vista como uma fuga à infância, período geralmente subestimado pelos adultos. Há estudiosos que justificam esse fenômeno pelo fato de a escola “matar” a criatividade. No ambiente escolar as disciplinas valorizadas são aquelas cobradas no vestibular, enquanto as artes e a educação física ficam em segundo plano. Assim, crescemos desvalorizando esse espaço artístico, o que faz falta mais tarde.
A grande fuga dos adultos está nas artes: cinema, literatura, música e pintura. Quem nunca ouviu uma música para relaxar? Ou assistiu a algum filme e “esqueceu” da vida durante duas horas? Winnicott dizia que a atividade lúdica é prazerosa e tem a capacidade de entreter o indivíduo em um clima de entusiasmo. É por isso que colorir é tão “viciante”.
Por fim, brincar é bom, pois é uma maneira de canalizar a frustração do dia a dia sem ferir alguém. É uma possibilidade de deixar a raiva e o estresse fluírem naturalmente, de uma maneira socialmente aceitável, além de sentir-se pertencente ao grupo das pessoas que buscam essa forma de prazer.