sábado, 13 de fevereiro de 2016

Felicidade 10mg



Vinícius de Moraes e Tom Jobim já diziam: “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” Mas não há problema, a indústria farmacêutica já vem cuidando dessa questão, revolucionando a vida dos tristonhos e desanimados com Rivotril, Prozac, Ritalina... Ah, a tão almejada felicidade agora vem em pequenas doses em forma de comprimidos!
Existe uma geração mimada e imediatista. Quer tudo pra ontem, quer tudo da maneira que deseja, quer evitar o sofrimento a qualquer preço.  Ela foi criada por uma sociedade que supervaloriza o sucesso, a revolução tecnológica e a felicidade estampada nas redes sociais. Ela é artificialmente feliz. Acontece que essa geração não aguentou... e finalmente adoeceu.
Para tratar de todas as enfermidades, geralmente psicossomáticas (que têm origem psicológica) dessa geração, são prescritos cada vez mais medicamentos para suportar mais um dia de trabalho sem motivação ao invés de se procurar a causa do problema. Não se aceita a dor. Aliás, falar sobre o sofrimento para um psicólogo é justamente afirmar que se tem uma tristeza; e isso é inadmissível na nossa sociedade feliz. O filme “Geração Prozac” ilustra bem essa geração.
O medicamento pretende melhorar a qualidade de vida das pessoas que estejam com algum grau de sofrimento, seja físico ou psíquico. No entanto, atualmente, percebe-se o uso indiscriminado dos remédios para manutenção da saúde, ainda que não sejam necessários. Ocorre a mecanização da vida e a automatização dos sentimentos. Para lidar com o luto pela perda de um ente querido, receita-se um antidepressivo pela urgência de voltar a ser feliz socialmente e laboralmente funcional.

Enquanto a indústria farmacêutica lucra com a venda da “felicidade em comprimidos”, a geração fica cada vez mais refém da Ritalina, do Rivotril... e vive cada dia à espera de uma nova droga para a solução da ansiedade perante uma escolha de vida. Estamos viciados na felicidade artificial e esperamos a cura para todo o mal que nós próprios criamos. Precisamos urgentemente de uma reabilitação para aprendermos a lidar novamente com nossos próprios pensamentos e sentimentos, de modo a conseguirmos contradizer os pais da Bossa Nova naturalmente.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Está todo mundo louco?


A criança que adora correr e brincar é hiperativa. A pessoa que só pensa em dormir é depressiva. Já não há mais um meio termo. Se pararmos para analisar as descrições atuais de transtornos mentais descritos em manuais como DSM-V e CID-10, constataremos que todos somos doentes em algum grau.
Machado de Assis em 1882 já abordava essa questão em “O Alienista”. Ele conta a história de um médico que decide estudar a psiquiatria e funda a Casa Verde, um hospital psiquiátrico, onde ele internava qualquer pessoa que apresentasse um comportamento fora do comum. Com o tempo, o simples fato de a pessoa ser muito indecisa ou extremamente bajuladora era sinônimo de loucura. Ao longo da narrativa, o psiquiatra perde a noção entre normal e anormal, razão e loucura quando percebe que praticamente todos os habitantes da cidade estão internados.
“O Alienista” nos fala da patologização de comportamentos e personalidades. Cada um tem uma personalidade e um modo de se comportar baseados em fatores epigenéticos (influenciados tanto pela genética quanto pelo ambiente em que vive). Portanto, seu modo de ser não caracteriza necessariamente um transtorno mental. Aqui se faz necessário entender que apesar de podermos apresentar sintomas de alguns transtornos psiquiátricos, isso não significa que somos necessariamente doentes.
Algumas crianças são mais ativas que as outras, assim como algumas pessoas têm manias de organização, mas não significa que esses sujeitos sejam loucos. As estatísticas crescentes de transtornos mentais podem ter duas razões principais: o aumento de conhecimento por meio de estudos e a informação ao alcance de todos. O avanço das pesquisas auxilia no diagnóstico precoce de uma condição de saúde. Por outro lado, a informação a um clique de distância leva à banalização de diagnósticos. O normal da criança é brincar. Aquela que não brinca é autista, enquanto aquela que não sossega é hiperativa. Há diagnóstico para todos.

É preciso ter cuidado e avaliar se o comportamento da pessoa é realmente uma característica dela, portanto, constante, ou se é apenas reflexo da fase de desenvolvimento ou estimulação ambiental. É preciso uma avaliação profissional para diagnosticar tais transtornos, que são analisados com base na quantidade de sintomas e na qualidade de vida da pessoa, lembrando que cada caso é um caso.

sábado, 16 de janeiro de 2016

O medo de ter que recorrer ao plano B


São muitos candidatos para poucas vagas e é muita cobrança para pouco reconhecimento. Mais de cinco milhões de estudantes aguardavam ansiosamente o resultado do Enem e com ele, seu futuro brilhante... ou nem tanto assim. O nervosismo e a ânsia pela aprovação podem prejudicar o desempenho daqueles que tanto se dedicaram aos estudos.
A ansiedade é comum perante ideia de mudança. A expectativa leva a alterações físicas e mentais, como dificuldade de concentração, tensão muscular, dores de cabeça e gástricas, sudorese dentre outros. Quanto mais exigente é a pessoa, mais ela sofre o impacto desses sintomas, pois a cobrança própria é muito grande e, em uma sociedade competitiva, ninguém quer perder.
O desempenho é medido por meio de uma prova teórica, não considerando outros aspectos como inteligência emocional e capacidade de colocar em prática a teoria, por exemplo. Cada pessoa tem facilidade em um tipo de avaliação, o que faz do vestibular uma ferramenta igual, porém não justa. O recomendado a todos é apenas o autocontrole.
Como controlar a ansiedade? Reserve um tempo para o lazer. Sabe aquela expressão de que o jovem “ficou louco de tanto estudar”? Então, sem uma pausa, seu cérebro não agüenta e a pessoa começa a apresentar uma ruptura com o mundo externo, já que o único pensamento no momento é o vestibular. Assim, a pessoa pode começar a falar sozinha, esquecer de se alimentar e de dormir. Lembre-se que foco é diferente de exclusividade. Dê mais atenção aos estudos, mas não se esqueça de parar para respirar.

O psicológico interfere imensamente no desempenho em momentos de cobrança e a falta do controle da ansiedade pode lhe fazer esquecer toda a matéria estudada. Por isso, o importante é lembrar que o desempenho no vestibular não define se a pessoa terá sucesso ou fracasso na vida. A prova é apenas uma porta de entrada para uma nova fase, assim como depois virão os concursos públicos na vida adulta. Não tenha medo de recorrer ao plano B, seja este ir direto para o cursinho ou tirar umas férias curtas para relaxar antes de voltar aos estudos.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Sonhar mais um sonho impossível?


Após um ano de tantas perdas: de saúde, de emprego, de entes queridos... 2016 renova a promessa de esperança. Em tempos onde se clama por justiça, paz e respeito, a crença de que o ano novo possa ser diferente fica abalada. Espera-se a vinda do salvador para nos redimir, procura-se uma Geni para nos salvar e tenta-se não perder a fé. Como é dito no filme Amélie Poulain, “são tempos difíceis para os sonhadores”.
Vivemos na era da ansiedade. Depositamos ao mesmo tempo medo e esperança no futuro e colocamos intensidade na falta de tempo. Queremos tudo pra ontem, apesar de deixarmos tudo para depois. Sonhamos, mas não temos força para realizar sozinhos, afinal, “sonho que se sonha junto é realidade”. Precisamos uns dos outros, mas não sabemos mais como nos ajudar, afinal, perdemos a empatia.
Há quem diga que uma das causas para os males cotidianos é a falta de empatia entre as pessoas, ou seja, a incapacidade de se colocar no lugar do outro. Desse modo, impera o ego, e consequentemente, o descaso pela vida em sociedade. Desviam verbas, violentam e matam sem pensar na dor do outro. Sendo assim, como acreditar em um amanhã melhor?
Alguns psicólogos vêem a esperança como um sinal de saúde mental. A psicologia positiva afirma que a pessoa otimista, ou seja, aquela que tem sentimentos de esperança é capaz de criar caminhos para se chegar à meta desejada. A depressão, por exemplo, seria a completa falta desse sentimento. Em suma, tudo se resume em acreditar.

Sabe aquele famoso ditado: “a esperança é a última que morre”? Pois então, é verdade. Por mais cansados que estejamos de tantas tristezas, todo ano ainda insistimos em fazer aquela famosa listinha com objetivos e promessas para o ano novo. Isso é ter esperança. Ainda que aquela dieta tenha durado apenas alguns meses ou que você tenha abandonado as aulas de alguma matéria na faculdade, você promete se formar e se propõe a perder somente o peso realmente necessário. Podem ser tempos difíceis para os sonhadores, mas talvez não seja impossível acreditar.

sábado, 19 de dezembro de 2015

À procura de Geni


Desastres naturais, intolerância, enfermidades, corrupção... em tempos de catástrofes é até difícil ter o espírito natalino... a única ponta de esperança que ainda nos deixa de pé é a possível vinda de um salvador... porque ninguém sabe como quebrar esse círculo vicioso de destruição.
O filme “Melancolia” de Lars Von Trier retrata o fim do mundo quando um planeta está prestes a se chocar contra a Terra. O nome desse planeta é semelhante ao título do filme que é também um estado psíquico de ânimo doloroso, segundo Freud (1915). De modo geral, melancolia é a perda total do interesse no mundo exterior o que leva a um torpor de emoções. Em palavras cotidianas, é o completo vazio existencial.
A constante exposição à violência, à falta de respeito e às mortes levam a um sentimento de frieza. A princípio, evita-se olhar o morador de rua até perceber que há outro no próximo quarteirão. O sentimento de culpa que a princípio temos pelas injustiças sociais se transformam em frieza para que nosso consciente não sofra com essa punição inconsciente de que “eu poderia fazer algo para mudar isso.” Assim, o comportamento de fuga e o sentimento de frieza constante levam a um desgaste emocional; não há mais investimento psíquico em algo sem retorno. Entra-se então em um marasmo, mais conhecido como vazio.
A era da informação, da rapidez e da falta de tempo contribuem para a indiferença. O clichê: “Isso é coisa de adolescente” implica que todo jovem é igual e que essa fase vai passar, nem adianta tentar conversar. Coloca-se a culpa na idade e distrai-se trabalhando sem parar. O trabalho virou fuga, não apenas fonte de sustento. Com o crescente desemprego, as pessoas foram obrigadas a voltar a ver o que tentavam esquecer fechando o vidro do carro para a pessoa pedindo esmola.

Apesar desse vazio, a culpa permanece em nós, mas não conosco; a transferimos para outras pessoas, assim como também projetamos a esperança de salvação. No fundo, queremos mudar a situação, mas não temos força para começar, pois aprendemos a desviar a atenção do que nos incomoda. É então que em meio a tantas tragédias, busca-se um “salvador”. A simbologia do Natal nos faz querer renovar essa força interior, essa esperança de que senão Jesus, ao menos qualquer Geni possa nos redimir do temível zepelim.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Cor de rosa choque


Já dizia Rita Lee: “Sexo frágil/Não foge à luta”. No dia 25 de novembro foi comemorado o dia internacional da não violência contra a mulher. Em meio às diversas manifestações relacionadas à chamada “Primavera das Mulheres”, milhares de mulheres utilizaram #MeuAmigoSecreto nas redes sociais para denunciar o machismo cotidiano.
De acordo com a ONU Mulheres (2015), a Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 realizou 634.862 atendimentos neste ano, dos quais, 63.090 foram relatos de violência. A Lei Maria da Penha foi uma importante conquista, mas apesar de quase todas as pessoas terem conhecimento dela, apenas algumas mulheres realmente a utilizam em seu favor. E por quê? Porque somos educadas para tal.
A sociedade é patriarcal. Os meninos não devem chorar, porque isso é coisa de mulher, enquanto as meninas devem ter filhos e não uma profissão. Assim, a ideia de cultura inclinada ao machismo é ensinada, ainda que inconscientemente, desde cedo por meio de brincadeiras infantis e famosos clichês, como: “Comporte-se como uma mocinha” ou “Menino é mais arteiro mesmo.” Em outras palavras, homem pode tudo; mulher nem tudo.
É nessa ideia internalizada de sociedade patriarcal que muitas mulheres suportam a violência doméstica. O medo da denúncia e de uma possível reação viril do companheiro levam a mulher a justificar o estupro dizendo que ela deve ter feito algo para “merecer” esse castigo. Nessa onda de medo, muitas mulheres encontraram nas redes sociais uma maneira sutil de denunciar as situações machistas a que são expostas.
Utilizando #meuamigosecreto, situações de machismo cotidiano foram expostas no Facebook. Dentre essas, estavam desde cantadas na rua e demissões devido à gravidez até estupro e tentativas de homicídio. Outra situação bastante exposta e comentada foi referente ao direito ao aborto, bastante difundida pelo dizer: “Meu corpo, minhas regras”. Essa manifestação tomou mais força quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, lançou o projeto de lei 5069/13, que sugere um maior rigor na punição ao aborto.

“Não acredito que estou protestando por isso em pleno 2015” é o que dizia o cartaz de uma manifestante. As lutas feministas tiveram início no final do século XIX e início do XX na busca pelo direito ao voto. Depois vieram as questões relativas à conquista da mulher no ambiente de trabalho e hoje a luta maior é em relação à violência doméstica. O foco muda com o passar dos anos, mas infelizmente ainda há muito que se discutir para se entender sobre igualdade de direitos. Até lá, o sexo frágil continuará nas ruas e redes sociais por um mundo um pouco mais cor de rosa choque.

sábado, 21 de novembro de 2015

Menos oração, mais ação


Brasil. França. Síria. Nos últimos meses, vê-se uma corrente de orações nas redes sociais por todas as vítimas dos acontecimentos em diversos países do mundo. A intenção é boa, o fato de chamar a atenção para as tragédias ajuda na conscientização, as pessoas têm a liberdade de expressão... mas isso não muda o que aconteceu.
Não é que não valha a pena discutir a luta pela paz, pelos direitos humanos e pela justiça. A questão é que a discussão fica apenas em alguns caracteres de uma rede social. Ela não sai do papel, e isso não faz diferença na prática.
A oração faz bem. Ela nos fortalece quando pensamos não ter mais força para lutar e seguir em frente. Assim, sentindo-nos mais fortes, voltamos a acreditar em nós mesmos e vamos à luta, consequentemente fazendo acontecer. Portanto, não adianta apenas rezar por esses países e não fazer algo para realmente ajudar. As pessoas da tragédia de Mariana precisam de água potável. A resolução de um dos problemas da população é simples: doe água. Isso faz a diferença.
Se pensarmos que foi exatamente a oração excessiva de terroristas islâmicos que ajudou esses intolerantes religiosos a terem força espiritual para amarrarem bombas em seus corpos e explodirem locais públicos em Paris, as correntes de oração do Facebook parecem não fazer mais tanto sentido.
Os moradores de Paris precisam de segurança. Os refugiados sírios precisam de teto. Os moradores de Mariana precisam de água. O que falta no mundo além da oração, é ação. Falta respeito acima de tudo. Respeito pelas diferenças religiosas, políticas e culturais.
Não são as imagens das bandeiras de Minas Gerais e da França nas fotos do Instagram que irão amenizar o luto dos familiares e amigos das vítimas. O luto estampado nas redes sociais não deve ser pelas vítimas, mas pelo respeito que morre a cada comentário racista e intolerante. Se estiver realmente abalado por tais tragédias, faça algo para que a liberdade seja respeitada.